Centro Latino-Americano de Pesquisa Stanislavski - As lic?o?es de Mikhail Tche?khov: entrevista com Ma Zhenghong e Alejandro Gonza?lez Puche

As lic?o?es de Mikhail Tche?khov: entrevista com Ma Zhenghong e Alejandro Gonza?lez Puche

As lic?o?es de Mikhail Tche?khov: entrevista com Ma Zhenghong e Alejandro Gonza?lez Puche
As perguntas dessa entrevista foram elaboradas por Natacha Dias, estudiosa da linhagem teatral de Stanisla?vski e convidada especial para a vive?ncia no Teatro Escola Macunai?ma. Optamos por manter as respostas de Ma e Alejandro em sua li?ngua de origem, o Espanhol, e por apresentar tambe?m sua versa?o em Portugue?s. As traduc?o?es foram feitas por Regiane Reis, professora de li?nguas portuguesa e espanhola, po?s-graduada em Metodologia de Li?ngua Espanhola e aluna do Teatro Escola Macunai?ma. Maria Knebel, que foi aluna de Mikhail Tche?khov e tambe?m colaboradora e disci?pula de Stanisla?vski, ao se lembrar das aulas no Estu?dio de Tche?khov (anteriores a?s Lic?o?es da Litua?nia), conta que eram em sua maior parte dedicadas a? primeira parte do Sistema Stanisla?vski, ou seja, a? busca do “sentir- a-si-mesmo” nos e?tudes¹. Considerando a trajeto?ria pessoal e arti?stica de Tche?khov, voce?s entendem que esse objetivo se mante?m presente no peri?odo em que formulou as Lic?o?es da Litua?nia? No peri?odo em que Tche?khov formula as “Lecciones en el Teatro Estatal de Lituania (1932)”² [Lic?o?es no Teatro Estatal da Litua?nia (1932)], ele ja? tinha outros objetivos, que complementam e se diferenciam dos postulados de Stanisla?vski. Em primeiro lugar, o trabalho do ator e? independente do texto e do diretor; e? mais focado na explorac?a?o do subconsciente, do imagina?rio e da limpeza interna, para acessar “o mundo das personagens” e o trabalho coletivo.
O me?todo de e?tudes (estudos) e? acima de tudo um me?todo de reconhecimento da ac?a?o no texto; sob o pressuposto de que, ale?m da “explorac?a?o mental” e? necessa?ria uma “explorac?a?o em ac?a?o”. Obviamente que a liberdade pessoal e? importante para entregar-se sem medo a este jogo a partir de estudos. “Sentir-se-a-si-mesmo” como a personagem, identificando seus Objetivos, os Acontecimentos, as Circunsta?ncias Dadas. Nessa medida, e? melhor um ator formado no me?todo Stanisla?vski, que domine os elementos que compo?em a personagem e que tem a capacidade de “vivenciar” essa informac?a?o, para depois ter uma experie?ncia nos elementos de Tche?khov. Sa?o Sistemas que se complementam, mas e? importante ter primeiro uma so?lida formac?a?o como ator. Portanto, a primeira condic?a?o para o diretor e para os atores e? na?o transformar esta explorac?a?o em um teste para verificar a habilidade interpretativa dos atores, na?o deve manter qualquer tipo de pressa?o externa, como “vamos ver como voce? improvisa”, para isso, e? muito importante sentir-se livre, “sentir-se-a-si- mesmo”. Tche?khov desenvolveu na sua pedagogia o senso de liberdade e a facilidade (leveza).
1. KNEBEL, Maria. Ana?lise-Ac?a?o – Pra?ticas das Ideias Teatrais de Stanisla?vski. Sa?o Paulo: Editora 34, 2016, p.98. 2. In: CHE?JOV, Mijail; OSI?POVNA, Mari?a. 16 Lecciones y Outros Materiales. Organizac?a?o e traduc?a?o de Ma Zhenghong e Alejandro Gonza?lez Puche. Colo?mbia: Universidade do Valle, 2017.
De que maneira esse “sentir-se-a-si- mesmo” pode ser pensado no trabalho de ensemble, ou conjunto, que constitui a maior parte dos exerci?cios? A princi?pio, isso seria paradoxal. Como voce?s entendem essa relac?a?o no trabalho do ator conforme previsto nas Lic?o?es da Litua?nia? Em Tche?khov, “sentir-se-a-si-mesmo” e? um assunto complexo. O ser em Tche?khov e? composto de personalidade e de individualidade, dois conceitos que se complementam. Acredito que, de alguma forma, Tche?khov procura limpar o ator de suas experie?ncias anteriores como ator, deixa-o “vazio” para que ele possa “ser preenchido” com as novas circunsta?ncias da ac?a?o. A evoluc?a?o do sistema de Tche?khov com respeito a? relac?a?o individual-coletiva e? palpa?vel, enquanto que nos livros Al Actor (Para o Ator) ou Lecciones Para un Actor Profesional (Lic?o?es Para um Ator Profissional), ele propo?e uma metodologia coletiva, tambe?m aparecem elementos do trabalho individual, como um Gesto Psicolo?gico; nas “Lecciones en el Teatro Estatal de Lituania (1932)” o teatro na?o e? concebido individualmente, mas como um ato coletivo. Uma composic?a?o coletiva de arte. Nisto, temos um Tche?khov proveniente do Teatro de Arte de Moscou, dos estu?dios. Em seguida, nos Estados Unidos, ele fornece elementos para o desenvolvimento individual. Considero uma metodologia que prepara o ator para ver e sentir seus companheiros (seus pares) com o corpo, com a totalidade. O ator deve concentrar- se em observar a parte que na?o e? visi?vel de seus companheiros e tornar visi?vel sua parte interna. Sa?o deciso?es coletivas onde a individualidade esta? subordinada ao grupo.
Ainda na tentativa de compreender a filiac?a?o de Tche?khov ao Sistema Stanisla?vski e os pontos que os distinguem, a ideia do “eu- este?tico” de Tche?khov seria a mesma coisa que a “segunda natureza” de Stanisla?vski? O princi?pio do “eu-este?tico” de Tche?khov e? muito sutil e na?o implica um padra?o de beleza, um estilo ou um ge?nero. Tche?khov chama a atenc?a?o dos atores para que desenvolvam uma conscie?ncia este?tica, da mesma forma que os bailarinos e os mu?sicos te?m. Ter conscie?ncia de que o que fac?o tem algo bonito ou colocar em movimento uma ideia de beleza, tanto de maneira interna quanto externa. O “eu-este?tico” pressupo?e uma conscie?ncia do ator sobre seus movimentos e palavras. Em uma arte ta?o efe?mera, e? preciso estar ciente de como as coisas sa?o feitas. Ao realizar uma ac?a?o, preciso refletir sobre “Quanto deposito de mim em um movimento”, em oposic?a?o esta?o os movimentos meca?nicos e inconscientes. Na?o tenho conhecimento se Tche?khov baseia-se no conceito de “segunda-natureza”, empregado por Stanisla?viski, mas ampara-se em tudo que signifique conectar o subconsciente, ou o que Tche?khov denominou como “o segundo ator”, que e? a energia espiritual; o que realmente conduz nossos corpos e que devemos reconhecer para recorrer a ela. Tche?khov designa o corpo visi?vel do homem como personalidade. O invisi?vel como segundo ator, ou individualidade (tudo aquilo que na vida comum na?o possui passaporte, nem idade, nem lugar de moradia).
Maria Knebel destaca tambe?m o fato de que Tche?khov conduzia os exerci?cios valendo-se de sua incri?vel capacidade como ator, chegando a entrar nos e?tudes em alguns momentos3. Do mesmo modo, voce?, Alejandro, tinha uma atitude parecida durante a conduc?a?o das Lic?o?es da Litua?nia na vive?ncia no Teatro Escola Macunai?ma. De que modo voce?s entendem a importa?ncia desse pedagogo-jogador no processo proposto? A sensac?a?o de jogo, de cumplicidade, de abismo, deve ser comunicada energicamente pelo professor. Na?o e? um conceito, e? um espi?rito de construc?a?o coletiva, por isso e? melhor que o professor jogue, comunique esse risco, elimine a mode?stia por derrota ou erro. Durante o curso na Escola Macunai?ma, parecemos compartilhar esse espi?rito. No?s jogamos com excelentes professores, diretores de grandes trajeto?rias, atores experientes, e ningue?m falou sobre sua pra?tica antes do jogo, na?o houve limites quanto a: “Eu fac?o ate? aqui, na?o mais tarde.” Alguns vieram com desculpas de que estavam doentes, mas na metade do encontro queriam participar e arriscar- se. Percebemos o contato energe?tico entre os atores e o conjunto de circunsta?ncias. Como vamos fazer uma pesquisa sem nos comunicar energicamente?
Diferente da abordagem da Ana?lise Ativa de Stanisla?vski, o trabalho de Tche?khov com as Atmosferas na?o tem como ponto de partida as Circunsta?ncias Propostas, embora essas sejam importantes posteriormente, conforme vimos na semana de trabalho sobre O Jardim das Cerejeiras. Voce?s acham que e? possi?vel a utilizac?a?o do procedimento de Ana?lise Ativa pelas Atmosferas em uma construc?a?o ce?nica na?o-drama?tica, ou seja, sem circunsta?ncias situacionais definidas? O conceito de Atmosfera e? talvez um dos legados mais importantes de Mikhail Tche?khov. A Atmosfera e? o meio atrave?s do qual o espeta?culo se comunica com a sala. Mas levanta o paradoxo: a Atmosfera na?o pertence a ningue?m, a nenhum ator exclusivamente, ao diretor ou ao ceno?grafo. A Atmosfera pertence a todos os participantes do espeta?culo e a nenhum em especial. E? mais, afirma que a Atmosfera e? algo totalmente independente, pertence exclusivamente ao espeta?culo. Claro que as Circunsta?ncias Dadas sa?o muito importantes neste processo, e? necessa?rio estudar as circunsta?ncias da cena, de cada ato e do espeta?culo, para construir a Atmosfera. O assunto e? converter essa informac?a?o em energia, em relac?o?es entre as pessoas, em cores, em estados de a?nimo do grupo. Claro que e? tambe?m uma maneira de explorar uma obra, de realizar uma Ana?lise Ativa atrave?s de Atmosferas, na?o so? de conteu?dos. A elaborac?a?o de Atmosferas pode servir para criar espeta?culos na?o exclusivamente verbais ou situacionais, mas quanto melhor forem analisadas as Circunsta?ncias Dadas, mais fortes sera?o os jogos, eles na?o podem ser abstratos; e? muito difi?cil para o ator criar algo indefinido. Sua materializac?a?o pode ser ete?rea, mas sua ana?lise precisa ser profundamente concreta.